31 de mar de 2009

Dentro de mim mora um anjo...


Vamos falar um pouco sobre a origem do termo "transmutação". Eu já expressei o ponto de vista de que este termo tem sido usado de forma abusiva por muitos seguidores da "Nova Era", a ponto de ter praticamente perdido seu sentido original. Então, vamos tentar recapturar seu significado.

A transmutação faz parte do processo alquímico. Os alquimistas dedicavam-se a um processo destinado a transformar a prima materia (matéria primordial, matéria prima) em pedra filosofal. Toda a opus (obra, o trabalho alquímico em si) visava esta transformação.

Para proteger seus esforços das interferências dos não iniciados, os alquimistas empregavam uma linguagem altamente simbólica, repleta de significados astrológicos e alegorias. Assim, seu objetivo era transformar chumbo (Saturno) em ouro (Sol). Naquela época, Saturno era considerado o último planeta do nosso sistema solar (Urano, Netuno e Plutão ainda não haviam sido descobertos). Portanto, ele simbolizava o limite exterior, além do qual era impossível continuar. Esta simbologia é muito rica, e permite uma miríade de interpretações. Uma delas é a de que se deve partir do exterior (Saturno) para o interior (Sol).

Esta transformação de chumbo em ouro evidentemente não é uma simples transformação. Um elemento deve passar por um processo que vai torná-lo um outro elemento, completamente diferente. É necessário mudar a própria configuração atômica do elemento. Esta transformação, que altera a própria essência do que é transformado, é chamada transmutação. E, à medida que estudamos mais profundamente o assunto, vemos que na verdade a essência verdadeira sempre esteve presente, mas estava oculta de alguma forma, inacessível, e o processo alquímico vem libertá-la.

Este é o verdadeiro significado da palavra transmutação. Uma transformação tão profunda que altera a sua essência. Ou, melhor ainda, uma transformação tão intensa que liberta a essência do que você verdadeiramente é, mas desconhecia até então. Um termo assim não deveria ser empregado levianamente, mas infelizmente é o que tem acontecido. Muitos cursos e técnicas prometem a transmutação a varejo e atacado, como se fosse mais uma miscelânea milagrosa entre tantas que grassam nesta época sedenta por respostas.

Eu mencionei que se deve partir do exterior para o interior. Ou seja, as respostas não se encontram lá fora, mas dentro de cada um de nós. O ouro alquímico (sua essência, aquilo que você realmente é, sua luz) está dentro de você, esperando que você faça o esforço (opus) necessário para transmutar o chumbo (suas limitações, restrições, medos, paradigmas, apego à matéria).

É óbvio que este não é um objetivo que se atinja de um dia para o outro, apesar de parecer assim quando finalmente é atingido. Quando um bebê nasce, parece incrível que num minuto não havia nada ali, e no minuto seguinte há uma nova vida. Mas para que esta nova vida fosse possível, foram necessários nove meses de gestação, e muitas horas de trabalho de parto.

Plutão é o agente que propicia esta transmutação, este nascimento do Self, finalmente integrado. Assim como no parto de um bebê, é necessário todo um trabalho de preparação, que às vezes pode levar toda uma vida (ou várias vidas). E não há garantias de um parto sem dor, porque complicações de última hora sempre podem ocorrer. Mas o milagre da vida faz tudo valer a pena.

Nos próximos posts iremos discutir o trabalho de Plutão sob vários ângulos, mas sempre que eu mencionar transmutação, estarei me referindo ao significado explanado neste texto.


Título: referência à canção Dentro de mim mora um anjo, de Sueli Costa e Cacaso.
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3 comentários:

Laura disse...

De fora para dentro... Seria uma jornada ao nosso próprio interior, não é mesmo? Começando de fora, e pouco a pouco adquirindo coragem de entrar mais fundo...

Mara, gostaria de um esclarecimento um pouco maior sobre sua noção de Self.

Um abraço.

Mara disse...

Isso, Laura, penetrando cada vez mais dentro de si mesmo...

O Self é outro termo que gera confusão quanto ao seu significado. Eu acredito que todos nós somos seres de luz. Nós reencarnamos muito vezes, e de cada vez assumimos um "ego" diferente (um novo corpo, um novo nome, etc). A grande maioria das pessoas se identifica totalmente com este ego, e nem sequer aventa a possibilidade de haver uma realidade mais ampla. Mas chega um dia, ao longo das várias reencarnações, em que o ser começa a despertar para uma realidade maior. Ele começa a questionar de onde veio, quem realmente é. E começa a olhar para dentro de si mesmo, em busca de respostas. Eventualmente, esta busca vai levar ao reencontro da luz dentro de si. Ao se identificar com esta luz, ao invés das formas ilusórias da vida material, ocorre a "morte" do ego, e toda a estrutura de realidade da pessoa se altera. Este é o nascimento (ou renascimento) do Self. Portanto, na minha opinião, o Self é a luz interior de cada indivíduo, que permanece adormecida, esquecida, até que o ser finalmente desperte e reivindique sua herança espiritual, integrando todas as partes de si mesmo. Um termo semelhante usado neste contexto é Eu Superior.

Laura disse...

Muito boa sua definição, há tempos eu tenho dificuldades de entender termos como este... Agora ficou mais claro!